Prestes a viajar para o interior de São Paulo, onde celebraria a virada de ano com a família, dei aquela passada esperta no shopping para comprar as indefectíveis lembracinhas.

De boa na lagoa, estava fuçando nos brinquedos em uma dessas lojas de departamento. Sempre digo aos parentes que faço isso por “dever profissional, para saber qual são as novidades do momento”. A verdade é que faria tais “visitas técnicas” mesmo que tivesse escolhido trabalhar com algo bem adulto e burocrático.

De repente, ouço uma senhora pedindo ajuda para uma funcionária. Como estava do outro lado da prateleira, acabei só ouvindo. Foi algo como: “Moça, quem desses aqui é o Homem de Ferro? Meu neto quer o boneco dele de presente, mas não conheço”. “Está escrito na caixa”, devolveu a atendente.

Detalhe: como esses produtos são vendidos ao redor do planeta, muitas vezes a embalagem está em inglês. E, mesmo quando está em português, uma palavra ou outra não está na nossa língua. Meio acuada, a senhora respondeu com: “Estou sem meus óculos, não consigo ler”.

Talvez estressada por ter trabalhado demais nos dias anteriores ao Natal − estávamos em pleno 30 de dezembro −, a jovem deu as costas e rapidamente foi cuidar de algo mais importante do que sua cliente. E olha que a loja estava vazia.

Nessas horas eu sempre fico na minha. Não sirvo para apartar briga ou para socorrer gato preso em árvore. Fico desconfortável até em dar informação, pois tenho medo de mandar a pessoa para o lugar errado.

No entanto, ainda imbuído pelo espírito natalino (o prazo expirou em 6 de janeiro), dei a volta e já fui logo perguntando se a senhora precisava de ajuda. Expliquei que o Homem de Ferro era sempre vermelho e amarelo. Também mostrei não somente os bonecos disponíveis, como quebra-cabeças e outras coisas estampadas por Tony Stark. Falei em voz alta o preço de cada uma das opções e, para que entendesse tudo, fui bem repetitivo.

Ninguém é obrigado a conhecer o Homem de Ferro (1)

Na hora me lembrei de quando entrei para a faculdade em São Paulo e tive que aprender a andar de metrô. Mesmo pedindo ajuda, na primeira semana me enrolei bonito, a ponto de atravessar a Avenida Paulista a pé porque tinha errado onde deveria descer.
Me sinto frágil quando não tenho o controle da situação. E aí até mesmo algo como “Desça na Ana Rosa ou na Paraíso e pegue o sentido Vila Madalena” vira grego para mim.

E foi estudando jornalismo que aprendi uma das lições mais importantes da carreira. Ninguém é obrigado a saber que Nova York fica nos Estados Unidos, que William Shakespeare escreveu Romeu e Julieta e que o Homem de Ferro é um super-herói da Marvel.

Obviamente, não é necessário contextualizar tudo quando está falando com um público específico. Você não precisa dizer toda vez a um nintendista que Pikachu é o mais famoso dos Pokémon. No entanto, vale a pena citar quando surgiu ou para qual plataforma um jogo da franquia foi lançado.

Não é nada vergonhoso não saber a respeito de algo ou conhecer algo profundamente, ainda mais quando se trata de uma moda ou fenômeno de mídia. Me desespero toda vez que surge uma série na Netflix e os meus amigos começam a publicar resenhas nas redes sociais. Bate um medo de, numa conversa, alguém descobrir que até agora só assisti ao primeiro capítulo de Stranger Things. E a segunda temporada já está disponível!

De todo modo, tente ajudar se vir alguém precisando de informação. Pode ser este que vos escreve perdido em uma das estações do metrô.