Essa reportagem foi feita por mim e por Bárbara Mayumi e Danilo Gregório quando éramos estudantes do 2º ano de jornalismo, lá na Cásper Líbero. A edição foi feita pela equipe do site de Cultura Geral da faculdade. Mantive a matéria como foi originalmente escrita. Grátis para uso comercial, a foto deste post veio do site https://pixabay.com. 

Sábado ensolarado na rua 25 de Março. Na hora do almoço, não faltam opções baratas e rápidas no tradicional corredor popular de São Paulo. O cardápio é variado: de pastéis, passando por churrasco grego, a doces como sorvete e bala caramelizada. O problema ao saciar o apetite nas diversas barracas é o ambiente nada agradável e a expectativa de que o “lanchinho” não se transforme em dor de barriga no dia seguinte.

Contra-filé ou capa de filé, alface, repolho, sem molho especial, em um pão francês – essa é a receita do churrasco grego de Arnaldo Morais. Aos 50 anos, o comerciante vende mil lanches por dia a setenta centavos, com direito a suco em pó sem açúcar. Trabalhando entre 13 e 14 horas diariamente e lucrando vinte centavos por sanduíche, sustenta a mulher e os cinco filhos há quinze anos.

Diz que a higiene é uma de suas principais preocupações, por isso obriga os dois empregados a usarem luvas. Mas, quando uma funcionária é vista recolhendo o dinheiro do cliente e cortando o pão com as mãos desprotegidas, desconversa: “isso é o de menos”.

Vendedores e administradores – Assim como o Arnaldo, o pasteleiro Ricardo Ribeiro de Souza, de 24 anos, também acredita na importância dos cuidados com a limpeza, apesar de usar um único par de luvas durante o dia. Ele as guarda no jaleco quando recebe dos clientes, só tornando a colocá-las para pegar mais pastéis para fritar. Costuma trocá-las só quando estão sujas demais.

O óleo para a fritura dos pastéis segue a mesma política. “Quando vai ficando escuro, espumando, não dá mais para fritar pastel. Dependendo do movimento, a gente troca o óleo em três, quatro horas. Mas sempre ponho óleo novo no que está fritando”, explica..

Ricardo trabalha no ponto há seis anos e sonha ter carteira assinada. De segunda a sábado, vende salgados a 50 centavos e recebe do patrão cerca de 800 reais por mês; além de 30 reais extras por domingo trabalhado. Elaine Cristina Alves, 37 anos, colega de Ricardo, deixou o magistério para ganhar vinte reais por dia.

“O salário de professora era pouco”, conta. Diariamente, Ricardo acorda às quatro horas para, às seis, abrir a barraca, organizá-la e comprar os ingredientes necessários. “Às vezes, o dono joga toda a responsabilidade nas nossas costas”, desabafa.

A barraca por ele administrada é uma das três de propriedade de Valdir Silva Souza, 38 anos. Ex-torneiro mecânico, Valdir teria mais de 15 barracas de diversos tipos na região, segundo alguns de seus funcionários. Ele nega o número, mas admite que já teve sete quando Celso Pitta era prefeito de São Paulo.

Todos esses estabelecimentos foram montados a partir de acordos ilegais. A autorização da prefeitura para usar o espaço pertence a um portador de necessidades especiais, cujo nome não revelado. O alvará é concedido com mais facilidade a deficientes, pois estes teriam menores possibilidades de conseguir trabalho formal. Valdir paga uma mesada por volta de 500 reais ao proprietário oficial do ponto-de-venda.

Para passar pela fiscalização, diz que apenas administra o local, usando o pretexto de que o deficiente que não pode tomar conta das barracas. Diariamente, são vendidos em torno de mil pastéis, com preço de custo de 35 centavos por unidade..

Espetinhos e milho verde – Trabalhando sozinho, há oito meses Reginaldo Corrêa Costa vende espetinhos de churrasco na região da 25 de março. Antes disso, trabalhava na Alameda General Carneiro. “Vendia bolsa como ambulante, mas o rapaz [o dono] não estava pagando”.

Desde que veio de Fortaleza, em 1994, Reginaldo sempre viveu do comércio ambulante. Neste onze anos, diz que já perdeu um carrinho de bebidas para os fiscais da prefeitura..

O ex-vendedor de bolsas e de bebidas afirma que a higiene é sua maior preocupação. Incessantemente, limpa o carrinho-churrasqueira de aço inox com detergente. Mesmo assim, mantém a carne guardada num pote, sem refrigeração. “A carne é comprada numa quantidade que se usa no dia”, conta.

De acordo com a nutricionista Rosângela Mamede, da Prefeitura Municipal, este tipo de alimento começa a estragar após duas horas sem conservação. O vendedor de churrasco ainda complementa dizendo que a sujeira das mãos não passa para os ingredientes porque toma muito cuidado. Vendendo na média 45 espetinhos de coxão mole por dia, Reginaldo tem um lucro mensal de 475 reais.

Enquanto Reginaldo tenta se sustentar com seus espetinhos, Israel José, 16 anos, foi criado com o dinheiro obtido com a venda de milho verde. A tradição começou há trinta anos, quando o pai da família José veio da Bahia para a capital paulista. Israel tem sustento garantido. Vende 100 espigas por dia a um real, mas lamenta que tenha interrompido os estudos. “Gostaria de voltar a estudar. Parei de estudar, mas aqui é muito difícil”.

A fiscalização é o grande temor dos ambulantes. Marcos José, que trabalha na mesma função que o irmão mais novo Israel, saiu correndo com o carrinho ao primeiro sinal do “rapa” e não voltou mais. Era a ronda da Guarda Municipal. Felizmente, o irmão mais novo retornou e pôde dar a entrevista. “Todo dia é assim”.

Preço razoável – Normalmente, os consumidores dizem se preocupar com aspectos como a higiene no preparo dos alimentos. É o caso de Raquel Silva, 30 anos, analista de vendas e de sua mãe, Vilma Silva, dona-de-casa. “A gente evita comer porque sabe que é sujo”, diz Raquel. Mas quando falta tempo e não há como segurar a fome, elas escolhem comer nos lugares que aparentemente mais limpos, como por exemplo, um trailer de cachorro-quente. Aliás, esse é um dos únicos pontos da 25 de Março em que há uma funcionária para atender e outra para preparar os lanches, usando touca, luvas e máscara.